agora vou-te cortar a língua para aprenderes a cantar, adília lopes

sexta-feira, 31 de julho de 2009

aforismos


#

o desejo ficou órfão
no vão das escadas.
o eco do ardor ouve-se ainda
tudo é contrário
à natureza.


#

quero morrer agora
sem nenhuma nuvem
que me amarre
quero ser o gato
que não cai de
pé.

adeus. vou para a lua.


AL




quarta-feira, 29 de julho de 2009

Fenomenologia do rodapé

Fenomenologia do rodapé


Séculos e séculos de história resumem-se a notas de rodapé.
Do que disse nem uma nota de rodapé ficará.
E é bom assim. (1)


(1) Este texto é pura ficção e esta nota de rodapé deve ser entendida como tal.

AL

#9

não viu a flor que lhe ofereciam
nos olhos
ignorou todas as rosas que lhe deram
só via mãos vazias
agora sabe que os olhos alheios já lhe pertenciam
há muito

todas as rosas que não soube receber
deixaram um cheiro intenso

na distância recebe agora essas flores
na ausência sabe que agora é quase um quase

AL

domingo, 26 de julho de 2009

A Universidade contra a cultura | António Pinto Ribeiro


A Universidade contra a cultura

Como se explica que, numa turma de um curso de comunicação de uma universidade, nenhum dos trinta estudantes que a compõem saiba quem foi Bertold Brecht?

Como se entenderá que estes estudantes tenham atravessado os vários níveis de ensino - do pré-primário ao universitário – sem terem aprendido quem foi este autor e o que ele significa?! Brecht é um ponto de uma constelação que inclui um determinado teatro, uma determinada literatura, uma determinada teoria da comunicação (da rádio, em particular); faz parte de uma família de escritores que funda uma literatura deste século, que representa uma época histórica, um período fundamental da investigação científica na física, na astronomia, na medicina, uma perspectiva política, uma ideologia, etc. Estes estudantes passaram cerca de quinze anos em estabelecimentos de ensino e ficaram à margem de uma parte crucial da cultura artística deste século. Como foi possível?

Incompreensível, a não ser pelo anacronismo do ensino universitário que formou os professores e técnicos que se ocuparam destes estudantes durante quinze anos, e que só se justifica porque as universidades (mas também os politécnicos) estão contra a cultura, seja a cultura humanística e artística clássica (Ah! Moliére, esse grande pintor do séc. XIX – afirmaria outro), seja contra a cultura moderna e contemporânea. (pg. 19 e 20)

RIBEIRO, António Pinto (2000), Ser Feliz é Imoral?, Ensaios sobre Cultura, Cidades e Distribuição, Lisboa, Livros. Cotovia.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

As coisas são como são

As coisas são como são, não como queremos que elas sejam. Mas quando as coisas são como queremos que elas sejam, algo está errado, pois as coisas não podem ser como nós queremos. Melhor: as coisas não podem ser sempre como nós queremos, nem às vezes, porque se assim for, ficamos mal habituados. Por isso o que queremos há-se ser sempre o que não temos, não por que assim tenha de ser, mas porque temos de aprender a sofrer. Só assim saberemos dar valor às coisas, mesmo que essas coisas sejam o que não queremos. Cortar a língua e a vontade para aprender a não mais querer.

golpe #

Nem na felicidade, nem na tristeza.
Nem na saúde, nem na doença.
em nenhum dia de minha vida

o equílibrio

AL

#

Necesito
crer
que alguén me oirá
cando me suicide.

Lupe Gómez